terça-feira, 27 de abril de 2010

vocação e teologia

wilson era bom em contar grãos de arroz. descobrira isso meio tarde, aos 43, mas finalmente descobrira... era isso o que pretendia fazer pelo resto de sua vida. conseguia contar quilos e quilos em poucas horas. sua vocação, era para isso que estava entre os vivos, esse era seu destino inalienável.

tinha um velho porco selado, rabujo, um leitão super desenvolvido com uns 3 metros de comprimento e que comia todas as plantações dos homens. gostava da lama que se formava na beira dos novos rios mais do que gostava de seu próprio dono, mas gostava de seu dono.

aos sábados, como era de se esperar, wilson cavalgava em seu porco pelas novas estradas da terra recém habitada e sentia o ar bater-lhe nas ventas. com a mão direita, espalhava pequeno punhados de arroz (14 grãos por vez) ao longo do caminho e criava a humanidade nas coisas feitas de pedra, por que era tarde de esbórnia.

wilson gostava de cavalgar em seu porco rabujo, mas isso era só diversão. seu trabalho era contar grãos de arroz.

domingo, 17 de janeiro de 2010

peru à cartola typewriter

impressiona descobrir a quantidade de merdas que podem ocorrer na vida de um sujeito em tão pouco tempo. descobrir por experiência própria impressiona ainda mais. depois de um tempo passei a chamar isso tudo de "sadismo divino", péssimo nome, inclusive. não nego, porém, que a imagem d'Ele sentado em seu enorme trono simplesmente para troçar de minha existência, sujando sua imensa barba despenteada com saliva e restos da coxa de peru ostentada pela sua mão esquerda e levada, de tempos em tempos, enquanto ria de mim, à boca de poucos dentes, ainda não saiu da minha cabeça. de alguma forma alivio tal lembrança refletindo a respeito de um trecho da bíblia, eu acho, que li em algum lugar. "deus fez o homem sua imagem e semelhança". quando o vi, pela primeira vez, guiava um escort azul claro em direção a puta que pariu e, não sei dizer exatamente porque, talvez porque estivesse bêbado, cruzei um farol vermelho e destruí meu carro na lateral de um caminhão. havia mais alguém, sentado no banco do passageiro e, no banco de trás, deus sentado em sua cadeirinha com cinto de segurança reforçado, comia o interminável pedaço de peru. parecia um pouco menos assustador, talvez por causa da decoração da cadeirinha ou talvez porque Ele fosse grande demais para as pequenas medidas do assento de segurança. quem diria? deus passando por uma situação ridícula no banco de trás de um carro. acho que muita gente já passou por situações vexatórias no banco de trás de um carro, eu mesmo consigo me lembrar de várias ocasiões e, por isso, de certa forma, acho que Ele está perdoado. "deus fez o homem sua imagem e semelhança". o último trem saia meia-noite e quinze e já era algum horário depois disso. no bar, velho barreiro e alguma história sobre uma noiva morta, jovens e velhos bebuns e um bom senhor de meia-idade, terno, gravata, meias finas. já meio ébrio, essa combinação de roupas não mais impunha tanto respeito quanto impora na manhã daquele mesmo dia. bêbado e, aparentemente, bastante deprimido, a gravata pouco aparecia, caída torta para o lado, encoberta pelo terno. o nó, afrouxado, quase desfeito, metade dos botões da camisa, já respingada de óleo e cerveja, abertos e o terno muito amarrotado. o bom cidadão se comportava como um bom cidadão numa sexta-feira qualquer. o garçom, como esperado, era deus e sua miraculosa coxa de peru. em todas as merdas que se seguiram, deus estava presente. comecei a acreditar que o desgraçado estava sabotando as coisas pro meu lado. passado os terríveis quinze dias, sujo de merda até o pescoço, comecei entender que Ele só estava lá, e o trecho da bíblia, escrito em algum lugar, explicava a coisa toda. "deus fez o homem a sua imagem e semelhança". a coxa de peru infinita não passa de demonstração de poder, como quando um cachorro usa uma cartola, uma útil e, no caso da coxa, nutritiva demonstração de poder.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

voltei de croatã...

com os olhos cinzentos.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

inclusão

num tubo
fecundo
placenteado de papelão e migalhas
fechado por argolas olímpicas

uma vida se forma

então o preparo
pra terra perversamente parir
mais um esfomeado
filho de deus
contra o chão

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

teogonia

uma linda mulher
nua e bêbada
fumando um cigarro
se debruça sobre o sujo parapeito
do prédio mais feio

a trindade do membro amputado
me eleva ao último andar

pé-esquerda

"se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. a noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. antes de tudo desmembrei o cadáver. separei a cabeça, os braços e as pernas."
o coração delator - edgar allan poe

não é loucura, saberia se fosse. tão pouco embriagues, pois essa finda com o dia às 7 e tantas da manhã numa cama qualquer feita de espinhos e seios. dois, belíssimos, perversos e maternais. não há qualquer problema em minha lógica exata e precisa, nem em minha subjetividade comedida, quase objetivada pelos sentidos químicos de meu cérebro matemático.

a alma permanece serena e pura na simples aceitação do mundo, suas coisas, nomes e lugares e todas suas sub e super-exposições, macro ou micro-econômico-sociais.

a inquietação tem apenas sentido físico. de todos os membros, percebo-me o menos apto, com dedos tortos e unhas mal-cortadas. carrego como apêndice toda a funcionalidade essencial e divina do corpo, guiada no equilíbrio-coxo da razão deslocada. na tentativa mítica de quebrar as correntes cirróticas, livro-me da cabeça e então dos braços, tronco e pernas. prostrado silenciosamente no forno engordurado pré-aquecido da razão pura, deito-me sendo pé-esquerdo e aguardo...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

schistosoma mansoni

a inquietude dos dias amenos
murmura entre os lábios.
se o sangue ainda pulsa
o desconforto é constante.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Cutelo

"Como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez è terna indiferença do mundo. Ao percebê-la tão parecida a mim mesmo, tão fraternal, enfim, eu senti que havia sido feliz e que eu era feliz mais uma vez. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, restava-me apenas desejar que houvesse muitos espectadores no dia de minha execução e que eles me recebessem com gritos de ódio."

O Estrangeiro - Albert Camus



Ontem, às 13h27, senti vontade de ver meu sangue espirrar. Sair por ai, na parada de sete de setembro, no carnaval fora de época de sabeláDeusonde, na igreja pentecostal, na casa da minha tia Julia. Sair por ai, borrifando meu sangue nos aventais brancos, nas criancinhas puras, nas putas, virgens, soldados, ladrões, mães, pombos, senhorinhas fazendo paçoca, vagabundos, alcoólatras.

Então só senti vontade de ver sangue, não o meu, de algumas pessoas. Algumas quaisquer, aleatórias, escolhidas com o mesmo critério de Deus. O cutelo. E arranquei, em pleno calor insuportável do sol, pernas como quem corta cana, rasgei troncos, separei cabeças. Com as bocas-de-lobo vomitando e jorrando, fiz meu tapete vermelho e caminhei triunfante pela rua sem graça, avisando a todos que merda toda está aí, não falta um pedaço sequer. Pro diabo, todos vocês!

Ontem, às 13h28, sentei pra esperar as tochas e foices.