segunda-feira, 21 de setembro de 2009

teogonia

uma linda mulher
nua e bêbada
fumando um cigarro
se debruça sobre o sujo parapeito
do prédio mais feio

a trindade do membro amputado
me eleva ao último andar

pé-esquerda

"se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. a noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. antes de tudo desmembrei o cadáver. separei a cabeça, os braços e as pernas."
o coração delator - edgar allan poe

não é loucura, saberia se fosse. tão pouco embriagues, pois essa finda com o dia às 7 e tantas da manhã numa cama qualquer feita de espinhos e seios. dois, belíssimos, perversos e maternais. não há qualquer problema em minha lógica exata e precisa, nem em minha subjetividade comedida, quase objetivada pelos sentidos químicos de meu cérebro matemático.

a alma permanece serena e pura na simples aceitação do mundo, suas coisas, nomes e lugares e todas suas sub e super-exposições, macro ou micro-econômico-sociais.

a inquietação tem apenas sentido físico. de todos os membros, percebo-me o menos apto, com dedos tortos e unhas mal-cortadas. carrego como apêndice toda a funcionalidade essencial e divina do corpo, guiada no equilíbrio-coxo da razão deslocada. na tentativa mítica de quebrar as correntes cirróticas, livro-me da cabeça e então dos braços, tronco e pernas. prostrado silenciosamente no forno engordurado pré-aquecido da razão pura, deito-me sendo pé-esquerdo e aguardo...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

schistosoma mansoni

a inquietude dos dias amenos
murmura entre os lábios.
se o sangue ainda pulsa
o desconforto é constante.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Cutelo

"Como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez è terna indiferença do mundo. Ao percebê-la tão parecida a mim mesmo, tão fraternal, enfim, eu senti que havia sido feliz e que eu era feliz mais uma vez. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, restava-me apenas desejar que houvesse muitos espectadores no dia de minha execução e que eles me recebessem com gritos de ódio."

O Estrangeiro - Albert Camus



Ontem, às 13h27, senti vontade de ver meu sangue espirrar. Sair por ai, na parada de sete de setembro, no carnaval fora de época de sabeláDeusonde, na igreja pentecostal, na casa da minha tia Julia. Sair por ai, borrifando meu sangue nos aventais brancos, nas criancinhas puras, nas putas, virgens, soldados, ladrões, mães, pombos, senhorinhas fazendo paçoca, vagabundos, alcoólatras.

Então só senti vontade de ver sangue, não o meu, de algumas pessoas. Algumas quaisquer, aleatórias, escolhidas com o mesmo critério de Deus. O cutelo. E arranquei, em pleno calor insuportável do sol, pernas como quem corta cana, rasgei troncos, separei cabeças. Com as bocas-de-lobo vomitando e jorrando, fiz meu tapete vermelho e caminhei triunfante pela rua sem graça, avisando a todos que merda toda está aí, não falta um pedaço sequer. Pro diabo, todos vocês!

Ontem, às 13h28, sentei pra esperar as tochas e foices.

domingo, 26 de julho de 2009

163

Aos bons amigos!

A tábua solta
no piso de taco
e todas as suas possibilidades.

Das paredes
de cortiça.
Dos cantos
de teias.
Dos olhos
de fome.

Banheiros não usados,
usáveis.
Do cheiro azedo
da sempre mesma garrafa de conhaque bebida.

Só o que sobra.
Agrada-me
o sem-valor,
o sem-significado.

Gênese

Quebrado.

Talvez seja o divino
já morto
fragmentos mínimos dessa coisa que se quebrou.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Olho de cobra

- Aceita um bife à cavalo?
- Não, obrigado. Não como carne de porco!

E Deus continua a perder no jogo de dados.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Dona Célia

Quando me dei conta, já ouvia sua voz no outro lado da linha. Chorosa, num tom de quem já se preparava para dar a notícia a mais um membro da infinita lista de pessoas que ela talvez tenha se esquecido de avisar. Tendo a certeza de que meu número ainda estava na agenda, senti minhas faces esquentarem e percebi que não teria mais volta, seria de muito mal-gosto simplesmente desligar:

- Bom dia Dona Célia. Peço desculpas, liguei para o número errado. - Tudo que ouvi, antes de bater o fone no gancho, foi um soluçogemido e o início de uma crise de choro que se alongaria por muitos minutos. Às vezes me esqueço que ele está morto.

Triste. Mantém o celular do filho sempre ligado, atende logo no primeiro toque qualquer chamada recebida. De uns tempos pra cá adquiriu o perturbador hábito de ligar, a partir desse, para seu próprio telefone, só para ver o nome que ela mesmo escolheu, há 25 anos atrás, aparecendo no visor. Atende sorrindo e desliga logo em seguida, deprimida e envergonhada. Tem repetido o ato a cada 15 minutos. Triste e desesperador.

Muito tempo atrás, já no fim de minha infância, chegando da escola encontrei uma cadela atropelada, caída à margem da rua. Quase não tinha forças para gemer e respirava com muita dificuldade. Uma das patas estava virada pro lado contrário e suas tripas escorriam pela guia.

Entrei chorando pra dentro de casa, abri a gaveta do armário da cozinha e escolhi cuidadosamente a faca mais afiada de lá. Lavei minhas mãos, rezei um pai-nosso e saí. De joelhos, cortei meticulosamente a garganta do animal. Coberto de sangue e deitado ao seu lado, sentia-me um pouco mais homem. Fiz só o que tinha de ser feito. Triste é saber que não posso fazer o mesmo por Dona Célia.